Após o sucesso do seminário ‘Aplicações da Realidade Virtual na Psicologia Clínica’ realizado em 15 de maio, entrevistamos Iván Alsina, psicólogo e ex-aluno do ISEP, especialista no uso das Novas Tecnologias da Informação e Comunicação, para que nos apresente essas novas aplicações da Realidade Virtual no campo da psicologia.
A Realidade Virtual é uma ferramenta de diagnóstico ou tratamento?
A Realidade Virtual representa, hoje em dia, uma poderosa ferramenta a serviço do profissional da área da saúde mental. A chave para entender por que a utilizamos no âmbito da psicologia clínica consiste no fato de que a experiência virtual é capaz de induzir no paciente emoções e reações muito semelhantes às que ocorreriam no mundo real. Assim, por exemplo, um paciente fóbico sentirá o mesmo nível de ansiedade e medo ao enfrentar o perigo virtual e o real. Isso posiciona a Realidade Virtual como uma ferramenta ideal tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento psicológico. No entanto, na psicologia, também é utilizada em outros contextos, como o educacional, social ou experimental.
Dentro das aplicações inovadoras que a Realidade Virtual possui na avaliação e tratamentos psicológicos, para tratar qual transtorno ela tem mostrado melhores resultados?
A área da qual temos mais evidências empíricas é no tratamento dos transtornos de ansiedade, como fobias específicas, fobia social, agorafobia ou transtorno de estresse pós-traumático. Nesses casos, a Realidade Virtual tem se mostrado uma técnica mais eficaz do que a exposição na imaginação e tão eficaz quanto a exposição ao vivo. Também estamos começando a ter resultados muito positivos para o tratamento de transtornos tão diversos como transtornos alimentares, vícios ou até mesmo disfunções sexuais.
Todos os perfis de pacientes podem ser tratados com Realidade Virtual? Você acredita que as novas gerações são mais receptivas a esse tipo de terapia e seu uso ajuda a reduzir o abandono do tratamento?
Em princípio, qualquer tipo de paciente pode se beneficiar de um tratamento especializado com Realidade Virtual, embora tenha sido constatado que pessoas introvertidas e aquelas com maior inteligência espacial podem responder melhor.
Quanto à segunda pergunta, é provável que as novas gerações, muito mais acostumadas a usar as novas tecnologias em sua vida cotidiana, sejam mais receptivas a iniciar um tratamento desse tipo, pois o consideram mais atraente. De fato, vários estudos mostram que pacientes universitários com diferentes fobias preferem ser tratados com Realidade Virtual em vez de uma técnica muito mais tradicional, como a exposição ao vivo. Por outro lado, também é verdade que pacientes com mais de 50-60 anos foram tratados eficazmente com Realidade Virtual. Em relação à taxa de abandono, ainda nos faltam dados conclusivos, mas, em geral, ela costuma ser semelhante à encontrada com as técnicas tradicionais.
Quais benefícios o uso da realidade virtual no tratamento de um transtorno específico oferece em comparação com os tratamentos tradicionais?
Imaginemos um caso de fobia de voar. Nesse transtorno, por motivos econômicos e/ou logísticos, é muito difícil realizar uma exposição ao vivo. Com a Realidade Virtual, podemos realizar um tratamento igualmente eficaz sem sair do próprio consultório do terapeuta e, além disso, com a possibilidade de repetir a exposição quantas vezes forem necessárias. Dessa forma, se o paciente tiver um alto nível de ansiedade apenas no momento da aterrissagem, podemos repetir essa situação quantas vezes forem necessárias. A Realidade Virtual nos permite ter controle completo sobre todos os parâmetros da situação de exposição; assim, por exemplo, podemos fazer o voo ser mais longo, que apareçam turbulências, etc. Nessa linha, é importante lembrar que nada do que o paciente teme pode realmente acontecer; a realidade virtual nos oferece, portanto, um contexto completamente seguro. Indicar, também, que o fato de a terapia ser realizada no consultório do terapeuta permite manter a confidencialidade do paciente, já que não é preciso acompanhá-lo à situação problemática. Finalmente, a Realidade Virtual pode ser especialmente indicada para aqueles pacientes com níveis de ansiedade tão elevados que se recusam a realizar a exposição ao vivo.
Em relação à técnica de exposição na imaginação, a Realidade Virtual nos oferece uma experiência muito mais real, pois podemos estimular os diferentes sentidos do paciente. O terapeuta também pode observar a todo momento as situações que o paciente enfrenta, o que nos permite prevenir a evitação cognitiva típica dos pacientes fóbicos.
Programa de realidade virtual para detectar ansiedade em exames
Atualmente, qual papel você acredita que as novas tecnologias desempenham no campo da psicologia clínica?
Nos últimos anos, houve um grande avanço no desenvolvimento das novas tecnologias, modificando drasticamente todas as áreas da nossa vida cotidiana. Na psicologia clínica, tecnologias como chat, videoconferência, telefones celulares de terceira geração, laptops, etc., estão se tornando cada vez mais relevantes para a prática clínica habitual, facilitando os processos de diagnóstico ou tratamento. A Realidade Virtual não é exceção e, de fato, já existem os primeiros centros privados que oferecem tratamento especializado utilizando essa tecnologia. Além disso, várias empresas já estão vendendo seus próprios ambientes virtuais direcionados ao campo da saúde mental. Toda essa situação está levando ao surgimento de um campo emergente conhecido como Ciberterapia. Assim como acontece com outras disciplinas, é certo que as novas tecnologias influenciarão profundamente o dia a dia do psicólogo clínico. Torna-se necessário, portanto, que o psicólogo clínico comece a conhecer as possibilidades que essas ferramentas oferecem.
Você acredita que esses tipos de terapias que utilizam a tecnologia como ferramenta fundamental ganharão mais destaque e acabarão com técnicas mais tradicionais para o diagnóstico, como testes ou entrevistas?
Sem dúvida, essa é a tendência que nos espera, ainda mais se considerarmos que hoje em dia qualquer psicoterapeuta pode ter seu próprio equipamento de Realidade Virtual de baixo custo. À medida que os custos diminuírem, as novas tecnologias se tornarão cada vez mais relevantes em nossa profissão e, de fato, isso já está acontecendo. De qualquer forma, ainda é complicado prever se as novas tecnologias acabarão por desbancar completamente as técnicas mais tradicionais. Na minha opinião, elas não deveriam eliminar o que já temos, mas sim complementar umas às outras. Acredito que as novas tecnologias, como a realidade virtual, são apenas mais ferramentas dentro do amplo leque de recursos disponíveis para o psicoterapeuta. Portanto, a escolha de usar novas tecnologias ou técnicas mais tradicionais dependerá de cada caso específico.