Estudos apontam que no verão ocorrem mais divórcios e separações do que em outras estações do ano. Para nos falar sobre este fenômeno, entrevistamos Raquel Ballesteros, docente do Mestrado em Sexologia Clínica e Terapia de Casais, que nos explica como a terapia de casais pode favorecer a resolução de problemas, chegando até a evitar uma ruptura. O Mestrado em Sexologia Clínica e Terapia de Casais é direcionado à especialização de psicólogos que desejam aprofundar-se no mundo da resolução de conflitos de casais.
Chega o verão e é durante estes meses que se registra um maior número de separações. A que se deve?
Nos meses de verão é onde as diferenças e conflitos não resolvidos podem aparecer com mais facilidade, especialmente se já existe uma comunicação deficiente com o parceiro e/ou uma maneira inadequada de resolver os problemas. O que durante o resto do ano podemos ter evitado ou escondido (por estarmos imersos em múltiplas atividades), é provável que no verão “venha à tona”.
Além disso, o verão é um espaço de evasão e liberdade em que as diferenças no modo de ser de cada um dos membros do casal podem se tornar mais evidentes. Frequentemente, existem conflitos com o planejamento das atividades que são realizadas no verão ou com o sentido que damos a estas datas.
Compartilhando mais horas por dia juntos, aumentarão as probabilidades de ter que colocar em prática a tomada de decisões em comum, a negociação e a gestão da nossa intimidade e espaço pessoal. Habilidades que devemos estar acostumados e treinados a usar de maneira habitual.
A terapia de casal pode evitar divórcios?
A terapia de casal é de grande utilidade para definir os objetivos de cada um dos membros do casal e poder acordar ou colocar em prática certas ferramentas, com o fim de salvar um relacionamento ou mediar um divórcio consensual (em uma minoria dos casos). Porque, certamente, a maior parte dos casais que procuram terapia são casais que estão comprometidos a trabalhar e a superar as dificuldades na relação.
E com este fim, pode-se intervir de maneira muito eficaz, trabalhando aspectos que melhorarão a relação significativamente e evitarão uma ruptura. Estes aspectos têm a ver com: a comunicação assertiva, negociação, expressão de sentimentos, resolução de conflitos, distribuição de tarefas, gestão da rotina e do tempo de lazer comum, sexualidade criativa, etc.
Sempre se tem medo de pedir ajuda para temas relacionados com o casal, o amor ou o sexo. A que você acredita que ainda se devem estes medos?
Socialmente, estamos cada vez mais familiarizados com termos psicológicos e mais envolvidos em trabalhar e solucionar os problemas emocionais. No entanto, ainda existem muitos tabus, crenças e ideias limitantes e pouco adaptativas acerca das emoções, da sexualidade, do amor e do casal.
O trabalho de casal e/ou em sexualidade, requer um compromisso consigo mesmo e com o outro. Um trabalho duplo em que devemos nos comprometer, arriscar-nos a mostrar nossas dificuldades e compartilhar nosso espaço mais íntimo com nosso parceiro e nosso terapeuta.
Existe a relação de casal perfeita?
A “parceria ideal” ou a “cara-metade” são mitos que nos foram vendidos socialmente e/ou através do cinema e dos meios de comunicação. Mas, certamente, nunca encontraremos aquela pessoa que se encaixe cem por cento com nossas expectativas e desejos.
Podemos nos apaixonar e nos sentir atraídos por alguém com uma filosofia de vida similar e gostos e preferências parecidos, mas cada membro de um relacionamento tem sua personalidade, sua história passada, suas rotinas e costumes, que inevitavelmente serão distintas e podem entrar em conflito.
É por isso que, de um ponto de vista psicológico, a relação “perfeita” será aquela que vive as diferenças pessoais como oportunidades para aprender e enriquecer-se. Mostrando-se aberta e receptiva às necessidades do outro e estando sempre disposta a negociar e buscar soluções diante das situações de confronto.
A relação é uma aventura em constante evolução e, mantê-la viva, requer um trabalho constante de aceitação. Acreditar na relação ideal e esperar pelo “príncipe ou princesa encantada” nos desculpa muitas vezes de ter que fazer este trabalho e de enfrentar as dificuldades e o mal-estar como parte do processo e da convivência a dois.