Há alguns anos, acreditava-se que nosso cérebro era estático e inalterável, que nascemos com um número determinado de neurônios que iam se perdendo com o passar do tempo e que nossos genes herdados condicionavam nossa inteligência. Hoje em dia, e graças aos avanços da neurociência, sabemos que existe a neuroplasticidade, ou seja, um cérebro plástico.
O que é neuroplasticidade?
A Neuroplasticidade é uma propriedade do sistema nervoso que lhe permite adaptar-se continuamente às experiências vitais. Nosso cérebro é excepcionalmente plástico, podendo adaptar sua atividade e mudar sua estrutura de forma significativa ao longo da vida.
A experiência modifica nosso cérebro continuamente, fortalecendo ou enfraquecendo as sinapses que conectam os neurônios, por isso estamos em contínuo aprendizado. Este fato permite que, independentemente do declínio natural que a velhice acarreta, o aprendizado possa ocorrer em qualquer idade, gerando novos neurônios, razão pela qual nossa inteligência não é fixa nem imutável (Guillén, 2012).
Da perspectiva educacional, o conceito de plasticidade cerebral constitui uma porta aberta à esperança porque implica que todos os alunos podem melhorar. Embora existam condicionamentos genéticos, sabemos que o talento é construído com esforço e prática contínua. E nossa responsabilidade como docentes reside em guiar e acompanhar os alunos neste processo de aprendizado e crescimento contínuo, não só para a escola, mas também e, sobretudo, para a vida (Guillén, 2012). Sob esta premissa, o Mestrado em Neuroeducação do ISEP foi projetado.
Estudos do cérebro plástico
Há estudos emblemáticos neste campo. Um deles é o de Eleanor Maguire com os taxistas de Londres, onde comprovou que estes aumentavam seu hipocampo ao ter que memorizar um complexo mapa de ruas (Maguire, E. A. et al., 2000); ou o de Thomas Elbert com os violinistas, onde encontrou que os sujeitos incrementavam a região da córtex cerebral que controla os dedos da mão esquerda (Elbert, T. et al., 1995).
Recentemente, os estudos do espanhol Álvaro Pascual-Leone foram considerados originais e significativos. No primeiro, ensinou-se a metade de um grupo de voluntários a tocar uma peça de piano com cinco dedos. Observou-se que o treinamento contínuo levou a um aumento na região correspondente à córtex motora que era responsável por mover esses dedos. Embora esse resultado constituísse uma amostra clara de neuroplasticidade, não era novidade porque outros experimentos haviam chegado a conclusões semelhantes. O realmente interessante resultou ao analisar as imagens cerebrais da outra metade de voluntários aos quais se pediu para imaginar que tocavam a peça. Observou-se que a simulação mental dos movimentos ativava as regiões da córtex motora que eram requeridas para a execução dos movimentos reais. Curiosamente, a prática mental era suficiente para promover a neuroplasticidade (Pascual-Leone, A.; Amedi, A.; Fregni, F.; Merabet, M.L., 2005).
O segundo estudo de Pascual-Leone é o chamado “experimento da venda“. Durante cinco dias, um grupo de voluntários saudáveis teve os olhos vendados. Durante esse período de tempo, foram mantidos ocupados lendo Braille (o sistema de leitura e escrita tátil pensado para pessoas cegas em que é preciso deslocar os dedos sobre pontos impressos) e realizando tarefas auditivas que consistiam em diferenciar pares de tons que escutavam com fones de ouvido. A análise dos escaneamentos cerebrais por ressonância magnética funcional revelou que o córtex visual dos participantes, após cinco dias, modificou sua função e passou a processar os sinais auditivos e táteis, aumentando assim sua atividade. Depois de retirar as vendas dos olhos, bastavam apenas algumas horas para que a atividade se reduzisse (Pascual-Leone, A.; Amedi, A.; Fregni, F.; Merabet, M.L., 2005). Do ponto de vista educacional, a demonstração de que o mero pensamento provoca a neuroplasticidade é valiosa.
O cérebro plástico e o aprendizado
Quanto aos processos de aprendizado, a atenção constitui um dos fatores críticos. É um mecanismo imprescindível porque a capacidade do nosso cérebro para processar a informação sensorial entrante é limitada. A atenção sobre o que se deve aprender requer esforço contínuo, motivação para ser receptivo e contar com as emoções adequadas (Davidson, Richard, Begley, Sharon, 2012). Nessa ordem, a dedicação constante requer autocontrole, o novo e o relevante facilita nossa motivação e, em um estado relaxado, nossa atenção (também a memória) se encontra em uma situação mais benéfica para facilitar o aprendizado. Portanto, a plasticidade cerebral permite, através de um treinamento mental adequado, que nosso perfil emocional possa mudar e afetar de forma positiva nossa vida (Spitzer, 2005).
A dopamina é um neurotransmissor com importantes implicações educacionais porque intervém em processos de gratificação e motivação que são fundamentais no aprendizado. Demonstrou-se que o pensamento positivo está associado ao córtex pré-frontal do hemisfério esquerdo e que, nesta situação, libera-se dopamina que ativa os circuitos de recompensa. Em um estudo realizado com ratos, demonstrou-se que a estimulação direta da área tegmental ventral, constituída por vias de dopamina, mudou as representações corticais dos sons ouvidos. Se os ratos apenas escutavam os sons sem nenhuma estimulação elétrica, nenhuma variação ocorria. A importância deste experimento reside no fato de que a neuroplasticidade ocorria no córtex auditivo ao estimular o circuito de gratificação da dopamina, ou seja, o aprendizado da tarefa sonora estava ligado à ativação de um circuito em que intervém um neurotransmissor que sabemos como afeta o aprendizado (Bao, S.; Chan, V.T.; Merzenich M.M., 2001)
Na prática educacional, é preciso saber estimular essa gratificação da dopamina com gestos, olhares ou condutas agradáveis. Nossa linguagem não verbal desempenha um papel importante na transmissão de componentes emocionais.
Conclusões sobre a plasticidade cerebral
Finalmente, somos a única espécie que utiliza a plasticidade para aperfeiçoar e evoluir o cérebro, o que nos torna diferentes e singulares. Mas, além disso, cada indivíduo de nossa espécie é único e imprevisível e participa de sua própria evolução devido à influência das experiências vividas.
A pesquisa em neurociências nos faz conhecer melhor nosso cérebro e isso nos ajuda a otimizar nossas capacidades. A formação em neuroeducação ajuda os profissionais da psicologia e da educação a entender os distintos mapas neurocognitivos presentes atualmente nas salas de aula de nosso país e melhorar os processos de aprendizado.