Seguindo o artigo compartilhado neste blog da última vez, compartilho com vocês nesta oportunidade o que o pesquisador José Padrón-Guillén (2006) propõe como “o cantinflerismo acadêmico”, uma espécie de modismo que emerge na pós-modernidade, especialmente no âmbito acadêmico, um truque que consiste em juntar palavras impactantes e altissonantes sem significado algum, que traduzem uma tautologia ou uma trivialidade, sempre com o objetivo de conseguir a admiração de estudantes e acadêmicos ingênuos. Neste artigo, será abordado, sob um olhar crítico, o que não são teorias no pós-modernismo atual.
Evidentemente, o termo “cantinflerismo” provém do famoso ator cômico Cantinflas, que, segundo algumas versões, construiu seu nome artístico a partir da expressão “quanto você infla, quanto você consegue”.
O cantinflerismo como truque visa a fazer parecer algo que não é e é comumente usado para:
- Superar situações incômodas
- Mostrar que quem o usa sabe muito
Nesta linha de raciocínio, Padrón indica que o termo se refere a inflar a linguagem e expressa que este cantinflerismo se caracteriza por uma total ausência de significados e ideias, onde prevalece um discurso cheio de palavras vazias.
Embora, segundo Padrón, possamos encontrar cantinflerismos no cotidiano, na publicidade, na política, seu uso tem se apresentado com força no contexto acadêmico, o que é alarmante, pois estudantes e leitores ingenuamente ficam presos no que Padrón (2006) chama de uma fraude cognitiva intencionalmente dirigida ao interlocutor para impactá-lo, impressioná-lo, saturá-lo com palavras que não têm nenhum sentido.
Infelizmente, Padrón estima que o agravante desta situação está em que o leitor ou o ouvinte fique com a ideia errada de que esses autores são eruditos e não podem ser contraditos, e é praticamente proibido dizer: “não entendo”. Lamentavelmente, este tipo de acadêmico consegue aumentar seu próprio prestígio por causa disso.
É importante ressaltar que esses autores escrevem trivialidades que, ao serem redigidas com uma linguagem complicada, camuflam-se como pensamento profundo. Neste caso, há um exemplo claro de um autor que Padrón (2006) considera ter ganhado prestígio pela forma emaranhada como escreve, fazendo referência à obra de Morín, que mostra um compêndio de trivialidades adornadas, ditas com grandes palavras disfarçadas de complexidade.
Evidentemente, o cantinflerismo de fundo lida com trivialidades. Alguns autores que o utilizam tendem a inverter os termos das frases para conseguir maior impacto em quem as lê. Alguns exemplos são:
- “O homem é esse animal louco cuja loucura inventou a razão”. (E. Morín)
- “Não chegamos a um acordo porque encontramos a verdade; encontramos a verdade quando chegamos a um acordo” (G, Vattimo)
- “Um homem é o que faz com o que fizeram dele” (Sartre)
- “O homem é aquele ser cujo ser é não-ser” (S. de Beauvoir)
Como se observa nos exemplos anteriores, os autores expressam trivialidades que, ditas de forma adornada, temperadas com grandes palavras, parecem estar revestidas de uma grande profundidade acadêmica.
Além disso, para Padrón (2006), Heidegger é um dos pais do cantinflerismo de todos os tempos, e ele destaca sua célebre frase: “A condição ôntica do ser humano é ontológica”.
Somado ao exposto, Padrón considera preocupante o dano que esses cantinfléricos causam aos estudantes e à academia, já que, ao fazer pesquisa baseada em cantinflerismos, não se produzirá conhecimento independente e soberano, mas sim um mar de palavras com um nível mínimo de profundidade.

Somado ao exposto, Padrón afirma que existem outros autores que vêm desmascarando os cantinfléricos acadêmicos, como fez Popper (1984), que analisou o discurso de Habermas (um cantinflérico daquele momento) e que, por meio do seguinte quadro, demonstra o pano de fundo trivial de seus postulados:
Citações de Habermas
- A totalidade não chega a nenhuma vida por si mesma, acima dos elementos que ela une e dos quais ela mesma se compõe.
- Ela se produz e reproduz a si mesma através de seus elementos individuais.
- Já não segue sendo possível separar esta totalidade da vida da cooperação e do antagonismo de seus elementos.
- Nenhum de seus elementos pode ser concebido simplesmente em termos de suas funções sem uma consideração do todo, cuja essência é inerente ao movimento de cada uma das entidades individuais mesmas.
- O sistema e a entidade são recíprocos e só podem ser concebidos em sua reciprocidade.
Tradução feita por Popper
- A sociedade consiste em conexões sociais.
- Estas diferentes conexões de algum modo produzem a sociedade.
- Entre essas conexões, encontram-se a cooperação e o antagonismo. E dado que (como se afirmou antes), a sociedade consiste nessas conexões, a mesma não pode ser separada delas.
- Pelo contrário, é também certo; nenhuma das conexões pode ser concebida sem as outras.
- (repetição do anterior)
Em atenção ao exposto, Padrón destaca, em razão da análise de Popper a Habermas, que o uso de palavras altissonantes deste último é cada vez mais desproporcional.

Outro autor destacado por Padrón é Alan Sokal, que, em sua intenção de desmascarar os cantinfléricos acadêmicos, realizou um artigo baseado em inflar a linguagem, com o uso de muitos truques e jogos de palavras, e este foi aprovado e publicado por uma revista de pesquisa social. Isso motivou Sokal e Bricmont a escrever um livro cujo tema central são as “Imposturas intelectuais”.
Para Sokal, os cantinfléricos são impostores, pessoas que, sendo ignorantes, se fazem passar por grandes sábios para ganhar adeptos, prestígio e, especialmente, fama.
Este autor apresenta algumas características típicas de um impostor intelectual ou cantinflérico:
- Falar prolixamente sobre teorias científicas das quais tem apenas uma ideia vaga. Sua tática é usar terminologia científica ou pseudocientífica sem se preocupar com seu significado.
- Incorporar às ciências humanas ou sociais noções próprias das ciências naturais, sem nenhum tipo de justificativa empírica.
- Exibir uma erudição exagerada com uma avalanche de termos técnicos em um contexto em que resultam absolutamente incongruentes. O objetivo, segundo Sokal, é impressionar e intimidar o leitor não científico.
- Manipular frases sem sentido, trata-se de uma espécie de intoxicação verbal, combinada com uma descarada indiferença pelo verdadeiro significado das palavras.
Somado ao exposto, Padrón (2006) afirma que Popper faz uma grande indagação a respeito do papel dos neodialéticos, tais como: Adorno, Marcuse, Habermas e Horkheimer, autores da famosa Escola de Frankfurt, que, a seu ver, não aprenderam a resolver problemas e a se aproximar da verdade, mas sim contribuíram para afogar os demais seres humanos em um mar de palavras.
Por outro lado, para Padrón, não existe assunto mais complicado do que confrontar um cantinflérico, pois estes, diante de uma postura argumentada e lógica, tendem a rotular quem os enfrenta academicamente como alguém de pensamento linear e, em contraste com seu pensamento complexo, sempre irão induzir ou sugerir que se adote seu tipo de pensamento “complexo” para que assim possa entendê-lo.
É importante ressaltar que Padrón considera que o pensamento chamado “complexo” não é mais do que um tipo de pensamento desordenado que não fornece definições, não faz classificações, que não raciocina e que não argumenta, e isso faz parte do engodo que os cantinfléricos acadêmicos usam para se posicionar como grandes pensadores.
Considerações Finais
Se na entrega anterior foi claramente destacado que todo sujeito cognoscente é capaz de fazer teoria e que, como seres humanos, somos dotados do “germe” para construir conhecimento, como bem assinala Padrón, está claro que se deve ter cuidado com a forma como usamos este dom.
Evidentemente, diante do grande potencial criador do ser humano, tudo é possível; no entanto, para além dos estilos de pensamento que cada um possui, é importante não se deixar levar por aspirações que possam distorcer o bom curso da construção do conhecimento, especialmente ao socializá-lo, pois, de maneira muito leve, poderíamos, como acadêmicos, gerar réplicas de ideias fátuas, vazias e sem pertinência, sustentadas apenas na possibilidade de mostrar uma grande sapiência, seja por uma questão de reconhecimento público ou mesmo para nos posicionarmos como ícones de uma cultura ou simplesmente por um interesse de ordem lucrativa.
No âmbito acadêmico, é fundamental questionar toda fonte, todo autor, esquadrinhar muito bem seus conteúdos e examinar acuradamente seus postulados diante da possibilidade de assumi-los como parte fundamental de nossas pesquisas.
Finalmente, seguindo Padrón, nenhuma teoria é definitiva e sempre deve ser objeto de revisão e avaliação. O cantinflerismo se constitui como uma transgressão e um obstáculo para visualizar as reais oportunidades de construir conhecimentos válidos para uma sociedade necessitada de respostas e soluções para os problemas e conflitos que a afetam profundamente.
Referências
Padrón, J (2006) Notas sobre o Cantinflerismo Acadêmico em https://josepadroninfo.ipage.com/cantinflerismoacademico
CAP 1: Cantinflerismos
Parte 1: https://www.youtube.com/watch?v=WvzyRsMVrFs
Parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=EDC7HBmhUxg
Sobre a autora: Dra. Dorys Alleyne
Docente na Universidade ISEP. Pesquisadora, com formação inicial em Educação e Psicologia. Mestre em Psicologia, Menção Psicologia do Desenvolvimento Humano, especialista em Aconselhamento e Consulta Familiar, Doutora Latino-americana em Educação. Diplomada na área de coaching ontológico, sendo lifecoach ativo, coach educacional com ênfase em neurociência, psicologia positiva e PNL.