Ao falar de luto, a primeira coisa que pensamos é em uma perda irreparável. Por isso, um dos fatores que pode trazer complicações neste processo é a ausência do enterro tradicional e de rituais de luto bem desenvolvidos.
Para que serve um ritual de luto?
Tradicionalmente, os rituais de luto ajudavam as pessoas a vivenciar o luto, proporcionando-lhes uma estrutura socialmente aceita na qual podiam e deviam direcionar temporariamente toda a sua atenção para o falecido, declarando assim a morte deste e aceitando suas consequências.
O que é um ritual terapêutico de despedida?
Quando não existem os rituais de luto tradicionais ou estes são inadequados, os rituais terapêuticos de “despedida” proporcionam à pessoa uma oportunidade para resolver seu luto. São empregados tanto na síndrome de luto conflituoso (a pessoa usa o luto como desculpa para não viver a vida que lhe corresponde), quanto na síndrome de luto inesperado (a pessoa falece de forma imprevista por algum acidente, desastre natural, etc.) (Parkes e Weiss, 1983, cp. Van der Hart e Frits, 1991).
Palazzoli e col. (1974, cp. Van der Hart e Frits, 1991) descrevem o exemplo de uma menina de dois anos e meio a quem seus pais não haviam explicado que seu irmão havia nascido com sérias dificuldades, nem que havia morrido seis meses depois. No entanto, sua filha parecia reagir a isso parando de comer. Os terapeutas deram instruções a seus pais para que lhe falassem de seu irmão e de sua morte e, juntos, enterrassem no jardim algumas de suas roupas e plantassem uma árvore na sepultura. Este ritual terapêutico foi uma experiência comovente, não só para a menina, mas também para os pais, resultando no desaparecimento imediato dos sintomas.
As terapias de luto em adultos
Pensando que este método poderia ser empregado também em adultos, Van de Hart (1987) começou a aplicar de forma sistemática rituais nas terapias de luto em uma unidade de psiquiatria comunitária; geralmente em pessoas com demandas psiquiátricas relacionadas a um luto crônico não resolvido. Tal técnica de luto é concebida como uma forma de despedida. Este tipo de rituais se formaliza em atos simbólicos através dos quais o cliente pode se despedir da pessoa falecida.
A maioria das modalidades de terapia de luto são tratamentos intensivos, com frequência de várias sessões semanais (Ramsay, 1977 e Volkan, 1981). Pelo contrário, a terapia que inclui os rituais de despedida começa com ao menos uma sessão por semana com o terapeuta, mas posteriormente, a ênfase é colocada no trabalho que o paciente deve fazer em casa e as sessões terapêuticas são dedicadas a consultas e a avaliar o progresso.
Fases do ritual terapêutico de despedida
Os rituais terapêuticos de despedida se compõem de três fases: 1) preparação, 2) reorganização e 3) finalização. Depois, pode-se fazer uma cerimônia comemorativa.
Como em outros métodos terapêuticos, a avaliação e o diagnóstico devem preceder a terapia de luto ou os rituais terapêuticos de despedida. Deve haver um contrato preliminar ao tratamento em que todos estejam de acordo. Em terapia, a escolha do ritual deve basear-se em uma avaliação adequada tanto das queixas do paciente, quanto de seu entorno (parceiro, família, amigos, etc.). É importante estabelecer se o paciente é o único membro da família com problemas de luto ou se toda a família está sofrendo um luto não resolvido. No último caso, é mais apropriada a terapia familiar, na qual também se empregam os rituais (Gelcer, 1983, cp. Van der Hart e Frits, 1991). Se na família existem outras tensões, relacionadas ou não com a perda, como norma devemos nos centrar primeiro no “passado”, ou seja, o luto não resolvido, e pedir que o cônjuge e/ou a família apoiem e cooperem nesta lembrança. A formação em psicologia clínica e da saúde é indispensável para que como psicoterapeuta você aplique na terapia as três fases dos rituais terapêuticos de despedida.
Fase preparatória de despedida
Nesta fase, o paciente expõe sua perda de forma pouco estruturada. O terapeuta lhe explica como a realização de um ritual de despedida poderia ajudá-lo a resolver seu luto. É importante assegurar-se de que o paciente está bem motivado para o ritual, já que este será uma árdua tarefa emocional e requererá um grande esforço. Não só pode desencadear emoções intensas em relação ao falecido, mas a pessoa pode debater-se entre a esperança e o desânimo. A família, a quem se pediu apoio e colaboração, deve ser informada destas questões. Durante esta fase, pode-se estimular os membros da família a que falem entre si sobre a perda, talvez com a orientação do terapeuta. A fase preparatória termina com um contrato definitivo, que especifica os acordos entre terapeuta e paciente sobre o ritual de despedida e a natureza de seu trabalho conjunto. A pessoa, uma vez realizada esta tarefa, terá ao menos uma sessão por semana com o terapeuta.
Fase de reorganização da despedida
Durante esta fase se realiza a maior parte do trabalho sobre o luto e outras experiências traumáticas. Quando este processo começa, a maioria das pessoas apresenta um incremento de sonhos sobre o falecido e o passado. Normalmente, o processo alcança seu ponto mais baixo no que se refere ao estado mental do cliente. Este experimenta um estado de profunda desesperança e depressão quando se dá conta de que o significado de sua existência não pode continuar provindo do falecido e que terá que se desligar dos vínculos que o mantêm unido, ou ao menos conceder à pessoa morta um lugar menos central em sua vida. Como carece de uma nova perspectiva ou objeto do qual derivar um significado, em algumas ocasiões, pode desejar pôr fim à sua própria vida. Em certos casos, para que o paciente saia deste impasse sem sofrer danos, é necessário um apoio extra do terapeuta em forma de contato mais frequente, explicações do processo e, em ocasiões, medicação.
Durante esta fase, o paciente segue certas regras que separam o período de luto da vida “normal”. Estas regras, cuja origem se encontra na tradição judaica (Lamm, 1969, Herman e col, 1987, cp. Van der Hart e Frits, 1991), também podem beneficiar os não judeus. Por exemplo, a pessoa pode acender uma vela cada dia ou cada noite, abster-se de beber álcool e de comer carne, de participar em festas ou celebrações, e renunciar a diversos luxos ou prazeres, ter relações sexuais, ir à cabeleireiro, etc.
Para iniciar o processo de luto ou encorajá-lo depois, o terapeuta pede ao paciente que escolha um objeto que simbolize sua relação com o falecido. O paciente dá um ou vários destes ao terapeuta para que os guarde. Depois, pede-se que se relacione com os objetos de forma diferente; por exemplo, colocando-os em um lugar mais importante, literal e metaforicamente. Poderia emoldurar a fotografia de um álbum e colocá-la em uma mesa da sala. O tratar de maneira distinta estes símbolos implica uma mudança na experiência consciente com respeito ao falecido. A pessoa pode criar desenhos, pinturas, esculturas, poemas ou histórias que sirvam como símbolos chave, ou encontrá-los na natureza (pedaço de madeira, conchas, frutas, etc.), podendo trabalhá-los ou alterá-los para incrementar sua semelhança ou conexão com o morto. A busca de atos e objetos simbólicos não é uma questão de ingenuidade por parte do terapeuta, mas uma forma de descobrir aquilo que o cliente sente que é apropriado e significativo.
De fato, “A carta contínua de despedida” é a forma mais comum de criar um símbolo da relação com o falecido. Esta tarefa é extremamente apropriada para os pacientes com uma síndrome de luto conflituoso, que assim têm uma oportunidade para expressar e integrar seus sentimentos ambivalentes com respeito ao falecido. Se a despedida abrange mais de uma pessoa, o paciente escreve, para cada pessoa, uma carta contínua distinta em um caderno diferente. Depois de escrever durante um tempo a uma delas, com frequência descobre que ainda tem algo a dizer à outra. O luto recente reativou o luto de uma perda anterior. Deste modo, podem-se realizar simultaneamente os diferentes processos de luto. A utilização de cadernos separados é uma maneira de diferenciá-los. Desta forma, o paciente pode dar-se conta de para quem se dirigem certos sentimentos (pena ou raiva, por exemplo).
Uma vez completada toda ou quase toda a carta, o terapeuta discute com o paciente o que vai ser feito com os respectivos temas e/ou cadernos. O paciente escreverá todos os dias, ou três vezes por semana, a uma hora e em lugar fixados, durante quarenta e cinco minutos a uma hora; menos em caso de que a tensão se faça demasiado penosa. Fixar um tempo e um lugar dão à carta um caráter ritual, proporcionando um enquadramento em que o cliente expresse e elabore suas emoções. O paciente pode requerer uma assistência especial, e é possível que o terapeuta, para ajudá-lo, necessite ler as passagens relevantes na carta. É preferível consultar o terapeuta sobre a finalização da carta; se a pessoa toma esta decisão por sua conta, arrisca-se a terminar demasiado cedo, evitando assim a experiência da dor. Os sinais de que o processo está finalizando são: uma menor preocupação com o passado, sonhos que implicam despedir-se do falecido, e um maior interesse pelas pessoas e coisas do presente. Nesta etapa, prepara-se uma cerimônia para despedir-se da(s) carta(s).
Fase de finalização da despedida
Esta fase abrange uma cerimônia de despedida, um rito de purificação e um rito de reunião. O paciente se despede solenemente dos símbolos criados e recolhidos mediante uma cerimônia de despedida, que com frequência adota a forma de funeral, ou bem se queimam primeiro os objetos e se enterram depois. Às vezes, é uma ocasião apropriada para limpar e tirar dos armários as roupas e outras pertenças do falecido. Certos objetos podem ser presenteados e, desta forma, reduzir ou perder contato com estes símbolos. A finalidade é diminuir a preocupação com o falecido e com frequência se evidencia que a realização do ritual “coloca algo em seu lugar” com respeito à(s) pessoa(s) de quem se está despedindo. Em ocasiões é necessário “colocar em seu lugar” coisas distintas com diferentes membros da família. Isto pode ser feito melhor se a cerimônia de despedida se realiza para cada pessoa separadamente. Também é importante conservar certos símbolos chave, para relacionar-se com eles de forma diferente. Por exemplo, uma viúva pode trasladar a fotografia de seu marido do dormitório para a sala. O objetivo não é fazer desaparecer todos os símbolos existentes, nem apagar a memória do falecido da consciência do cliente.
Finalizada a cerimônia de despedida, o paciente realiza um ritual de purificação como banhar-se ou tomar banho. Isto marca o sucesso da fase de transição. Depois, celebrará sua entrada na “vida normal” com uma reunião ritual, que com frequência consiste em uma comida especial com o cônjuge, os familiares ou amigos. A reunião ritual tem grande importância, já que expressa simbolicamente as relações mais significativas na nova fase de sua vida.
Uma vez finalizado o ritual de despedida, convirá ter umas sessões de acompanhamento. Durante estas sessões, propõe-se uma cerimônia comemorativa, já que inclusive depois de todo o trabalho de luto do ritual de despedida, certas datas farão ressurgir a pena (a data da morte ou o aniversário do falecido, por exemplo).
Como psicólogo, contar com uma formação como o Mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde do ISEP lhe proporcionará segurança para enfrentar este tipo de casos.