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Transtorno do Espectro Autista: Características e Implicações no Lar

Uma médica me disse: “você começará a viver o luto pelo filho não perfeito”… e comecei a chorar.

A frase desta médica mudou minha vida. Foi o momento em que senti que deveria assumir a responsabilidade como nunca e de forma especial pelo filho que carreguei por nove meses em meu ventre. Meu filho foi diagnosticado com a Síndrome de Asperger, atualmente, TRANSTORNO DO ESPECTRO DO AUTISMO.

Nenhuma teoria é mais válida do que a experiência vivida em casa

 A Associação Americana de Psiquiatria (APA) publicou a nova versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, DSM-5. Tanto o Transtorno Autista, a Síndrome de Asperger e o Transtorno Invasivo do Desenvolvimento Sem Outra Especificação, são fundidos em um único transtorno que passa a ser chamado de “Transtorno do Espectro do Autismo”. Os critérios estabelecidos foram modificados, agrupando-se em uma única dimensão as interações sociais, a comunicação e a linguagem. Além disso, são organizadas as áreas de alteração que consideram os sintomas concretos. No caso de repertório restrito de comportamentos e interesses, destaca-se a incorporação das alterações sensoriais como área de alteração.

 A literatura médica faz referência ao período anterior ao século XX. Massie e Rosenthal fizeram uma revisão histórica em seu livro “Psicoses infantis nos primeiros anos de vida”, ed. Paidós. Entre suas citações, destaca-se uma do século XVIII, onde uma série de relatórios foi publicada em toda a Europa sobre crianças afetadas por uma epidemia de histeria que durava uma hora, sendo diagnosticadas como crianças possuídas pelo demônio.

 Em Paris, Voisin (1826) dividiu as crianças a partir da sintomatologia e etiologia:

  1. Os débeis mentais: Cuja inteligência se situa entre a do imbecil e a do normal.
  2. Os nascidos normais que tiveram educação deficiente.
  3. Os que mostravam anormalidades de caráter desde o nascimento, como orgulho e “paixões incontroladas”.
  4. Os filhos de pais insanos e por isso com predisposição genética à afecção mental. Psicose e autismo. Unidade didática, pág.13.

A partir desta divisão, Voisin criou um tratamento com o objetivo de melhorar as relações interpessoais, além de oferecer uma educação moral orientada para o trabalho de tendências antissociais.

 Outros personagens da história da psiquiatria e psicologia como Bleuler (termo esquizofrenia), Kraepelin (termo condição lunática, insanidade, loucura), Witmer (termo psicose da infância), Ferrari, Klein (primeira a trabalhar a importância da formação de símbolos no desenvolvimento do EU) e Frith fazem referência a este tema, evoluindo nos termos e descrições desde o conceito de esquizofrenia, loucura, condição lunática, psicose da infância até chegar a Kanner em 1943, que descreveu pela primeira vez o autismo infantil precoce.

Características do Espectro Asperger

Para efeitos de tratar o tema em concreto, este artigo abordará as características do Espectro Asperger segundo o DSM-4, visto que o foco está no trabalho com crianças desta condição e não outra. A seguir, o tema será descrito e tratado sob este conceito.

Hans Asperger, austríaco, em 1944, publicou seu primeiro artigo em relação à Síndrome de Asperger. Os principais traços que ele escolheu como relevantes eram:

  • uma abordagem social inadequada
  • interesses focados em uma temática pontual
  • vocabulário e gramática bem desenvolvidos

Esta última, em ocasiões monótona em seu discurso e sem desenvolvimento comunicacional bidirecional; coordenação motora pouco desenvolvida, em ocasiões com dificuldades na lateralidade; dificuldade específica em uma ou duas áreas da aprendizagem e um baixo critério de senso comum.

Por sua vez, o DSM-4 descreve esta Síndrome de Asperger como um Transtorno de validade nosológica duvidosa, com a presença de atividades repetitivas, estereotipadas e restritas. Não se observa dificuldade no desenvolvimento da linguagem. Pelo contrário, este desenvolvimento potencial é de caráter literal, extenso e pedante, embora no processo de comunicação seja observado como pobre e escasso. A inteligência é normal e avançada; no entanto, o desenvolvimento motor apresenta maior torpeza. Em geral, a Síndrome de Asperger ocorre em uma escala de 8 para 1 na relação entre homens e mulheres. A probabilidade de que estas condutas persistam na adolescência é alta; em geral, os traços não se modificam com a influência ambiental, mas existe um bom prognóstico de poder integrar-se adequadamente à sociedade. Somente em ocasiões se apresentam episódios psicóticos na vida do adulto.

Descrição da atividade de uma criança com Asperger

Em relação a esta informação, efetivamente constatei que meu filho, desde por volta dos 3 anos…

  • Não estabelecia contato ocular com as pessoas, com exceção de seu círculo mais próximo.
  • Quando falava ou respondia a terceiros, o fazia olhando para a figura de seu entorno próximo que tivesse.
  • Suas reações impulsivas diante das negações de seus anseios eram fortes e pouco controladas. Insolente, agressivo e mentiroso.
  • Incomodava-o estar em festas de aniversário com muitas pessoas e que estas cantassem. Tapava os ouvidos, corria ou incomodava para chamar a atenção.
  • Sentia-se desconfortável com outras pessoas em sua casa que não fossem as habituais. Preferia estar sozinho com seus pais.
  • Na hora de comer, solicitava ter comidas “limpas”. Ou seja, almoço tipo arroz com frango e salada de alface. Esta devia ser repartida em diferentes pratos. O arroz em um prato, o frango em outro prato, a salada em outro prato, a salada em um pote e os temperos em outro.
  • Ninguém podia beber do seu mesmo copo, canudo ou talher.
  • Apresentava atração por dinossauros. Leituras, jogos e brinquedos relacionados a eles.
  • Seus brinquedos eram de uma só linha. Por exemplo, gostava unicamente dos Transformers e só esses de diferentes tipos o agradavam… outros brinquedos ele ignorava.
  • Suas dependências começaram a ser as tecnológicas. Seis, sete, oito horas em frente a algum tipo de recurso tecnológico, como a televisão, o celular, PlayStation e/ou computador.
  • Obcecado com o jogo Minecraft e com outros por períodos mais curtos, chegando ao extremo de querer programar parte de certos personagens.
  • Começava-se a observar sua dificuldade específica na escrita, apesar dos esforços que estavam sendo realizados com exercícios caligráficos.
  • Habitualmente andava descalço. O calor era sufocante para ele. Tendia a passar de um banho com água morna para um completamente gelado.
  • Com grande rigidez em seus movimentos, especialmente quando se zangava, realizava movimentos de frustração (choro, olhar fixo, punhos cerrados).
  • Na escola passava despercebido pelos seus colegas. Boas notas e boa participação; no entanto, ao chegar em casa, descarregava tudo aquilo que o incomodava.
  • Suas preferências nas distintas áreas e/ou disciplinas tendem a ser artes e matemática. Também gosta de música eletrônica.
  • A vestimenta teve que ser mudada quase por completo para tecidos suaves, finos, sem etiquetas ou elásticos que o apertassem.
  • Houve situações onde podia deixar por completo um alimento (como o leite) ou, ao contrário, consumir algum todos os dias e várias vezes por dia.
  • Muito carinhoso, afável, disposto e bom para criar histórias. Especialmente quando está em sua zona de conforto, com aqueles que o amam, cuidam e estão dia a dia com ele.

Esta tem sido, em parte, a descrição das características de um Asperger. Um caminho difícil para os pais dessas crianças.
Para que psicólogos, neurologistas, terapeutas e professores cheguem a um diagnóstico, é preciso descartar outros fatores que possam ser variáveis intervenientes no processo de descobrir o que acontece com a criança.

Meu filho tem Síndrome de Asperger?

Em primeiro lugar, a base está em descartar toda patologia do menor. Depois, descartar fatores de risco social-familiar, carências afetivas e/ou econômicas. Que o comportamento comece a ser permanente e não seja produto de alguma situação pontual que altere o desenvolvimento do menor.

Para isso, é necessário cobrir as distintas áreas com diferentes profissionais, aos quais se recomenda o seguinte:

  • Médico geral.
  • Psicólogo.
  • Neurologista.
  • Psiquiatra.
  • Paralelamente, psicopedagoga.
  • Paralelamente, terapeuta ocupacional.

Cada um deles contribuirá significativamente no processo que está sendo realizado tanto com as crianças quanto com os pais. Alguns mais do que outros, sem dúvida, terão a sutileza de compreender que existirão dias bons e não tão bons.
Acrescenta-se que, para o menor, a terapia ocupacional é visivelmente mais propícia, visto que é prática, lúdica e direta para trabalhar a integração sensorial e o processo de socialização.
Também o adotar um ramo esportivo, os fará favorecer uma vida saudável, a disciplina, a perseverança, a motricidade, o processo de socialização, o desafio e também conseguir a meta ou o prêmio.
Neste caso, foi escolhido o taekwondo, pois cumpria com todas as características antes mencionadas.

Interação entre a família e a escola

Em relação à escola, é importante ter uma estreita relação, comunicar o diagnóstico o mais breve possível para assim ser foco dos professores e protegê-los de certas situações que poderiam desencadear a diminuição da tolerância à frustração. É importante, dependendo do grau que a avaliação possua, diferenciar o que se requer para observar as fortalezas e fraquezas por área que o menor apresenta. E a partir desse indicador, apoiar no objetivo.

Recomenda-se ir de mãos dadas com a escola neste processo, a segunda casa dessas crianças. Alguns vão para escolas tradicionais, outros se perdem no caminho e optar por escolas com características particulares é uma alternativa válida que poderia favorecer o menor.
Em casa, é necessário advertir familiares e amigos sobre esta situação. Provavelmente, o menor não estará à vontade com a invasão de seu espaço e fará o possível para dificultar uma boa acolhida aos convidados. É por isso que o processo de planejamento e comunicação com a criança é importante: manifestar-lhe que virão familiares e que ele deve se sentir tranquilo. Da mesma forma, solicitar a quem visita maior paciência, a partir do que já é conhecido do diagnóstico.
Como pais, é importante ser rigorosos com a medicação, os horários e as rotinas estabelecidas. A designação de papéis é fundamental em relação às atividades relacionadas com o menor (realização de tarefas escolares, hora do banho, entre outras).
Quanto ao social, deve-se potenciar constantemente o processo de socialização, manifestando o agradável de estar com outras pessoas. Com isso, é importante abrir as portas da casa para que a criança seja quem convide quem desejar para brincar, compartilhar ou realizar atividades extracurriculares.

As atividades ao ar livre poderão favorecer positivamente a criança, visto que experimentam maior possibilidade de exploração sensorial. As saídas familiares à montanha, à praia, ao campo; são e serão sempre um aporte em todo âmbito do menor.

Conclusões pessoais sobre a Síndrome de Asperger

Este processo é árduo, tedioso, misterioso e doloroso. No entanto, pouco a pouco o caminho vai se iluminando quando o diagnóstico é claro. Quando os especialistas trabalham com uma mesma linha; quando o menor toma consciência de sua condição e quando os pais assumem uma realidade distinta de seu filho (a). Não é fácil compreender o porquê, no entanto, as ferramentas estão lá, embora, principalmente para os pais na primeira infância do menor.

O importante neste processo é não se deixar abater como pais e como educadores, tirar o máximo potencial dessas crianças que certamente escondem mais de um talento.
Meu nome é Paula González, mãe de Maximiliano, diagnosticado recentemente, aos sete anos, com o Transtorno do Espectro do Autismo.


[1] CID-10. Referências:

PT2-T18 Autismo infantil F84.3 Transtorno desintegrativo da infância [299.10]upF84.9 Transtorno global do desenvolvimento não especificado [299.80]

Um vídeo explicativo da Síndrome de Asperger é “Hugo, um amigo com Asperger”:

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