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Intervenção em Dificuldades Pragmáticas na Linguagem

Entende-se por pragmática o estudo dos princípios que regulam o uso da linguagem na comunicação, ou seja, as condições que determinam tanto o emprego de um enunciado concreto por parte de um falante concreto em uma situação comunicativa concreta, quanto sua interpretação por parte do destinatário.

O que é a dificuldade pragmática da linguagem?

Quando falamos de dificuldade pragmática da linguagem, nos referimos aos problemas que os indivíduos têm no uso da linguagem com fins comunicativos. Nas salas de aula, observa-se que muitas crianças não falam, ou seja, têm dificuldade em empregar a linguagem como instrumento para se relacionar com os outros e para formular perguntas, pedidos e esclarecimentos sobre o conteúdo que é ministrado na aula. Habitualmente, as crianças com dificuldades pragmáticas também apresentam problemas em outros componentes da linguagem, especialmente no morfossintático. Em qualquer caso, o que interessa é estabelecer se há algum tipo de relação entre a dificuldade da linguagem em geral e a dificuldade pragmática em particular (Acosta e Moreno, 2001).

Exemplo real de intervenção fonoaudiológica educacional

Vejamos um exemplo de intervenção, com a participação de um fonoaudiólogo com formação em fonoaudiologia educacional.

Pablo é uma criança em idade escolar no segundo ciclo do ensino fundamental, com uma idade de 5 anos e seis meses, que apresenta certas dificuldades no uso da linguagem como ferramenta para acessar diversas demandas curriculares, situação que se agrava quando deve realizar atividades cooperativas, onde se observa um pobre emprego da linguagem e, além disso, evita a interação com outras crianças.

Por outro lado, também apresenta dificuldades na compreensão de orações múltiplas. Sua produção linguística também é limitada, já que apresenta um vocabulário escasso e um predomínio das orações incompletas e intervenções não verbais, assim como das orações com erros gramaticais nas quais se manifesta a utilização de autocorreções ou reformulações.

Quanto às estruturas linguísticas empregadas, há um predomínio das orações simples e dependentes, mas mais dificuldades com as orações múltiplas coordenadas. Nas conversas, ele se mostra como uma criança pouco assertiva com seus colegas, e em ocasiões toma o turno de forma inadequada. Quando lhe é proposto iniciar algum tópico, ele o faz, mas não lhe é fácil mantê-lo, e quando este é iniciado por seus colegas, lhe custa muito se envolver. Tudo isso se torna mais evidente quando lhe é proposto conversar sobre coisas ou eventos que não estão presentes, enquanto que quando a conversa se organiza sobre um objeto ou atividade, a criança participa mais, toma a iniciativa e mantém o tópico. Suas respostas são simples (sim, não) ou se limita a não responder. A ausência do referente coloca Pablo em uma situação difícil a nível conversacional, como por exemplo, quando lhe é pedido que descreva sua comida favorita ou o que faria se encontrasse um leão no jardim? (Acosta e Moreno, 2001).

O que fazer em caso de dificuldades pragmáticas da linguagem?

Por isso, o programa de intervenção se baseou em:

a) Fazer com que mantenha o tópico dentro de uma sequência de perguntas e respostas.

b) Melhorar sua habilidade para descrever e explicar eventos com ausência do referente.

c) Aumentar seu vocabulário.

d) Tentar que sua produção linguística seja mais elaborada e explícita (Acosta e Moreno, 2001).

Os conteúdos do programa de intervenção desenhado para trabalhar com o paciente abrangeram: o discurso conversacional mediante o uso de tópicos descontextualizados ou com ausência do referente, a denominação conceitual léxica e as orações múltiplas (Acosta e Moreno, 2001).

A criança foi atendida individualmente por uma fonoaudióloga educacional durante dois dias por semana. Em uma das sessões de 30 minutos participava a mãe de Pablo. Também, trabalhou-se na sala de aula ao lado da professora de Pablo, tomando como referência os conteúdos curriculares do segundo ciclo da educação infantil, fazendo uso da leitura de contos, das narrações, dos jogos de vocabulário e conceitos básicos (Acosta e Moreno, 2001).

A professora e a mãe foram conscientizadas sobre a importância de ajustar seu input nas díades de comunicação compartilhadas, já que com isso se conseguiria melhorar sua habilidade para manter o tópico de maneira adequada em uma situação de sequências de perguntas e respostas. Por exemplo, foram ensinadas a formular boas perguntas onde a criança devia decidir, por exemplo, para o lanche, “Você quer um sanduíche de presunto e queijo?”, ou aquelas que criam interesse e expectativa: “O que vem agora?”, “E se um extraterrestre aparecer?” Por outro lado, foi proposto que evitassem aquelas perguntas que interrompem a comunicação, como por exemplo “O que é isso?”, ou aquelas que contêm a resposta: “Você quer uma maçã, não é?” (Acosta e Moreno, 2001).

Melhora conversacional em crianças com dificuldades pragmáticas de aprendizagem

Para a melhora do discurso conversacional sobre tópicos passados e futuros, fez-se uso de diferentes roteiros, como por exemplo: “A viagem de avião”, “A visita ao médico”, “Ir às compras no supermercado”, utilizando os materiais oportunos para cada situação. O trabalho com os roteiros permitiu a consecução de objetivos de denominação e conceituação léxica. Por exemplo, a partir de “ir às compras no supermercado”, foram elaboradas cartelas para denominar um amplo vocabulário que depois permitiu ir introduzindo operações como a classificação, inclusão, exclusão, busca de semelhanças e diferenças, etc. (Acosta e Moreno, 2001)

Foi sugerido à mãe que facilitasse à criança a elaboração de certas tarefas domésticas, como ajudá-lo a preparar um lanche, para o qual devia fazer uma lista com tudo o necessário. Com a professora, fez-se um trabalho colaborativo para planejar cada unidade didática, da qual se extraiu o vocabulário básico para empregá-lo na sala de fonoaudiologia. Isso permitiu a Pablo adquirir um vocabulário mais amplo e a oportunidade de generalizá-lo a situações reais de comunicação e aprendizagem dentro da sala de aula. As orações múltiplas foram facilitadas enfatizando um estilo de comunicação interativo, que se concretizou no manejo de expansões, extensões e incorporações nas interações (Acosta e Moreno, 2001)

Resultados de intervenção fonoaudiológica

Quanto aos resultados obtidos, a criança conseguiu uma maior participação em situações de interação, ao mesmo tempo em que tomou mais a iniciativa. Sua contribuição para a conversa resultou notável, sendo capaz de empregar os turnos para falar em situações sem a presença do referente. O mais destacável é que, mediante o uso continuado de estratégias comunicativas integradas em situações participativas, interativas e conversacionais, alcançou-se um objetivo triplo: um maior desenvolvimento das habilidades pragmáticas em Pablo, um maior progresso nos aspectos léxicos e de estruturação morfossintática e uma mudança no estilo comunicativo e linguístico da mãe e da professora (Acosta e Moreno, 2001).

A intervenção do fonoaudiólogo educacional deve incluir pessoas do círculo próximo da criança, dado que farão parte ativa do tratamento. O ISEP, com seu Mestrado em Fonoaudiologia Educacional, forma seus alunos na necessidade de integrar pais e educadores na intervenção para, como vimos no caso de Pablo, conseguir uma maior efetividade.

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