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A Morte e os Processos de Luto

Os processos de luto diante de uma perda são, psicológica e biologicamente falando, uma reação completamente normal e esperada. É possível observar períodos de luto diante de qualquer tipo de perda, de um objeto, de um relacionamento, um papel social ou até mesmo diante do abandono de uma substância viciante que a pessoa tenha arrastado por vários anos, como parar de fumar. Essas reações e processos ocorrem em maior ou menor escala enquanto a pessoa se depara com qualquer tipo de perda.

A perda de um ente querido costuma ser a mais comum no campo psicoterapêutico. As raízes dessa reação e do processo consequente podem ser situadas no desenvolvimento das relações de apego, prova disso é que o luto não é exclusivo da raça humana, mas também é observável entre animais (Lorenz 1963).

Em primeiro lugar, é preciso destacar um aspecto chave: os processos de luto diante da morte de um ente querido não devem ser categorizados como uma doença mental, mas sim como um processo de recuperação de um desequilíbrio, um retorno à homeostase, se preferir. A metáfora explicativa mais aproximada a nível biológico seria similar ao processo de cicatrização de uma ferida. Estaremos de acordo que negar a dor, ocultar sua existência da ajuda profissional ou manipulá-la constantemente não permitirá ao corpo executar corretamente sua cura.

Quando falamos dos processos de luto, uma referência obrigatória é William Worden e seu conhecido modelo de quatro fases. Aqui, Worden sustenta acertadamente que o primeiro passo, por óbvio que seja, está em aceitar a realidade da perda, podendo-se observar aqui uma reorganização dos esquemas do sujeito. Esta é a fase onde os bloqueios podem fazer sua aparição diante do choque produzido pelo desaparecimento, especialmente se foi súbito ou não houve tempo suficiente para se despedir. Encontraremos bloqueando dois mecanismos de defesa: o de negação, que se manifesta, por exemplo, guardando tudo exatamente igual a quando a pessoa estava viva, mantendo intocáveis suas posses, como se fosse voltar a qualquer momento (Gorer 1965); ou, no extremo oposto, produzindo uma minimização do impacto do ocorrido (se é que existiu vínculo) mediante uma indiferença evidentemente excessiva, seria continuar como “se nada tivesse acontecido”. Ambas as posições costumam ser indicativas de um luto não elaborado. Aqui se tornam, portanto, de especial importância as ações físicas e os rituais (funeral, carta de despedida, etc.) que ajudam a aceitar paulatinamente a irreversibilidade da perda. Da mesma forma, existem tarefas que trabalhamos em psicoterapia que podem ajudar a completar esta fase quando a pessoa não teve tempo ou não se despediu corretamente, como rituais de despedida, tais como cartas ao falecido ou reorganizações associadas a objetos. A ideia é ajudar o afetado a marcar um antes e um depois, a mudar, modificar ou executar algo que imprima em sua mente a irreversibilidade do fato.

Em segundo lugar, é preciso trabalhar as emoções e a dor. Em muitas ocasiões, a sociedade atual esconde ou tenta minimizar tudo o relacionado com a morte, ao contrário de muitas sociedades mais primitivas que resolvem de forma excelente e criativa esses processos. Esse fato faz com que, às vezes, se tolere mal as manifestações de afeto negativo, que são absolutamente necessárias e, em especial, nesses casos: a dor e a possibilidade de manifestá-la são necessárias (Pincus 1974). Refugiar-se em idealizações, não ser capaz de uma observação suficientemente imparcial dos próprios sentimentos em relação à pessoa falecida ou tentar recorrer a drogas para anestesiar os estados emocionais disfóricos procedentes das lembranças sobre o falecido, costuma derivar em bloqueio e o fato de evitar o luto pode conduzir, cedo ou tarde, a um colapso ou à manifestação de sintomatologia depressiva (Bowlby 1980).

Posteriormente, chega-se a uma fase de adaptação: a pessoa se depara com um ambiente em que o falecido está ausente e deve voltar a enfrentar situações, lugares ou tarefas que exercia com apoio ou deverá substituir a pessoa que faleceu. Aqui devemos fazer especial ênfase nos modelos de família patriarcais e em pessoas financeiramente dependentes ou com uma autoestima baseada no cuidado dos outros. Nesses casos, esta fase lhes resultará o passo mais complexo, já que, por um lado, é preciso enfrentar ou suprir os recursos que o falecido provia e tentar, também, que o círculo social não se “esgote” devido às manifestações de pesar. É de grande importância manter os contatos sociais e buscar seu apoio, pois é aqui onde podem aportar mais soluções e dar mais ajuda prática, além de apoio emocional. Em várias ocasiões, comprovou-se que as pessoas externas reagem melhor e prestam mais apoio àqueles que encaram as perdas ou catástrofes de forma proativa. O isolamento surgirá como a principal ameaça desta fase do processo, capaz de bloquear a pessoa. Tenha-se em conta que estamos falando também da perda de um papel, que geralmente foi desenvolvido com a pessoa falecida durante anos e em uma relação de complementaridade emocional, material ou social, não é estranho que a autoestima possa ser afetada de forma direta (Zaiger 1985).

Finalmente, é de esperar que, se as fases anteriores foram elaboradas corretamente, a pessoa seja capaz de recolocar emocionalmente o falecido; esta é a fase de continuar vivendo, tal como assinala William Worden, e pode prolongar-se durante o resto da vida da pessoa; no fundo, é um ponto e vírgula a partir do qual o sujeito afetado pode reconstruir sua vida e suas atividades, sem deixar de recordar o ente querido. Esta é a serenidade que se busca ao final de um processo de luto e não tem um tempo preciso de resolução, apesar do que a literatura médica, psiquiátrica e psicológica tem tentado propor, delimitando os períodos.

Cabe acrescentar que provavelmente nos encontraremos com uma série de reações nessas fases, sintomatologia que é perfeitamente normal observar em uma pessoa elaborando o luto, sem por isso categorizá-la como patológica: os sentimentos de ansiedade, de tristeza, a impotência, os pesadelos e até as alucinações com o ente querido não são patológicas. O conhecido sentido de presença é uma reação do cérebro adaptando-se a uma perda, fato que devemos respeitar dentro de um prazo de tempo razoável. É preciso assinalar também que não deve surpreender que as fases não sejam lineares, assim que é preciso contemplar a possibilidade de regressões ou recaídas em fases anteriores, sem que isso implique que o trabalho esteja sendo feito erroneamente. Ao contrário, pode dotar de conhecimento o paciente sobre si mesmo e fazê-lo perceber onde cada linha de atuação, cada cadeia de pensamentos o leva, e ajudá-lo a vislumbrar onde pode precisar de mais ajuda ou novos recursos.

Diante desses processos tão complexos, que se estendem, retraem, que parecem melhorar para depois voltar atrás… em que podemos nos basear para saber quando as coisas não estão marchando corretamente? Para saber quando nos enfrentamos a um luto mal elaborado, já que seria grosseiro fazê-lo com um limite temporal rígido (exceto em casos abertamente muito extensos), podemos tomar uma pauta simples: segundo minha experiência, é especialmente importante a existência ou sensação de bloqueio por parte do sujeito; esta é uma das melhores formas de detectá-lo. Se a pessoa, após um tempo, não foi capaz de aceitar a perda, continua agindo e falando da pessoa falecida no presente, evita o tema com ansiedade extrema, isolou-se do ambiente ou teve suas capacidades muito limitadas… você pode fazer-lhe a famosa pergunta que Francine Shapiro fazia a seus pacientes bloqueados com TEPT: o que você fazia antes que agora não pode? Sua resposta pode nos dar grandes indícios de onde o processo normal de luto ficou estagnado.

Em relação ao uso de psicofármacos, é preciso assinalar que seria uma abordagem muito incorreta administrar medicação antidepressiva por norma. O mais recomendável pode chegar a ser alguma medicação prescrita e temporária dedicada a paliar a sintomatologia ansiosa ou problemas diretos como a insônia (Hacket 1974). O luto não é necessariamente produtor de uma depressão e esta não poderá ser tratada de forma correta mediante psicofarmacologia até que este esteja devidamente processado e elaborado.

Os profissionais envolvidos nesses processos podem ser desde profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos…) até grupos de apoio informais nos quais os afetados se sintam confortáveis ou identificados e possam compartilhar experiências comuns, se possível com um membro profissional para guiar e redirecionar. É mais conveniente evitar decididamente qualquer grupo com possível desvio sectário (grupos espíritas ou místico-mágicos) que aproveitem o estado de instabilidade emocional dos afetados para fins econômicos, não só pela perda de dinheiro, mas também pelas consequências para o estado mental do indivíduo, já que esses grupos costumam estar fundamentados em crenças irracionais que, mais do que ajudar, bloqueiam o correto processo de luto. Hoje, está comprovado que a atuação conjunta de profissionais e grupos de autoajuda correlaciona, além disso, com menor probabilidade de transtornos mentais e psicossomáticos no futuro (Parkes 1980).

Por último, ressaltar que não devemos perder de vista o potencial nível de frustração que em muitas ocasiões perceberão tanto os profissionais quanto os voluntários, podendo dedicar muitas sessões ao acompanhamento ou à escuta ativa. É muito importante respeitar os tempos, já que as circunstâncias de cada pessoa, e em especial as do falecimento, podem produzir manifestações tão variadas que podemos nos deparar com a culpa ou a ruminação (pensa-se repetidamente como poderia ter evitado a morte), com sentimentos de forte injustiça (como a morte de um filho pequeno) que podem levar a um replanejamento de valores e crenças espirituais, aspecto que é prioritário respeitar independentemente da confissão religiosa do terapeuta ou da instituição que provê a ajuda. Também poderíamos observar um desenvolvimento muito distinto em casos onde persiste a incerteza do falecimento (nas declarações de falecimento por desaparecimento); tudo isso resulta em uma abordagem distinta, idiossincrática e muito individualizada, que, mesmo passando pelas fases que comentamos, deve focar em conseguir paulatinamente a reincorporação nos níveis mental, social e laboral, juntamente com um trabalho psicológico e de acompanhamento supervisionado por profissionais quando necessário ou evidente o bloqueio.

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