Quando em um relacionamento de casal se observa em um dos dois integrantes um ciúme fora do comum, não se deve enganar acreditando que essa pessoa o(a) cela porque o(a) ama loucamente. Um homem ciumento ou uma mulher ciumenta começarão a desconfiar de seu parceiro(a) e, pouco a pouco, o relacionamento se converterá em um campo de batalha onde a comunicação e o diálogo estarão ausentes. Essas práticas podem se tornar ciúmes patológicos e chegar ao extremo de que a pessoa proibirá seu parceiro(a) de sair sozinho(a), falar com amigos, arrumar-se, vestir-se bem e até trabalhar, pensando que pode ser infiel no trabalho.
O ciúme pode ser explicado como uma emoção intensa que é experimentada quando há um desejo exagerado de possuir de forma exclusiva seu parceiro(a). Representa insegurança e geralmente é sofrido por pessoas que se sentem inferiores e ameaçadas de perder seu parceiro(a).
O ciúme e suas características comuns
O ciúme é autodestrutivo, causa mal-estar, angústia, tristeza, estresse, nervosismo, dores de cabeça e pode até ocasionar problemas mais graves, como tentativas de suicídio e psicose. Através do Mestrado em Sexologia Clínica e Terapia de Casais do ISEP, o profissional estará capacitado para reconhecer os distintos tipos de ciúme. É importante para um profissional, ao realizar tratamentos de casal, poder identificar, classificar e adaptar as terapias dependendo do tipo de ciúme que se apresente na relação entre as pessoas. A seguir, explicamos seus diferentes tipos.
Ciúme patológico e outros tipos de ciúme
Ciúme manifesto
O ciúme manifesto ocorre quando a pessoa desconfia de seu parceiro(a) e o(a) interroga sobre seus colegas de trabalho, universidade, etc. Manifesta raiva quando vê seu cônjuge ou namorado(a) conversando com alguém sem que ele ou ela esteja presente. Desconfia ainda mais do parceiro(a) quando não consegue fazê-lo(a) confessar com quem falou ou com quem se encontrou no dia e deseja um relatório diário sobre seu parceiro(a) e, para isso, o(a) assedia constantemente.
Ciúme oculto
O ciúme oculto ocorre quando a pessoa não reclama sobre homens ou mulheres amigos de seu parceiro(a), mas tem atitudes grosseiras e reproches contínuos para com seu parceiro(a); tenta minimizá-lo(a) a nível profissional, ou critica negativamente as atividades que realiza (esporte, lazer, etc.), assim como seu entorno social (família, amigos) com a finalidade de que não se sinta superior sob nenhuma circunstância.
Ciúme patológico
O ciúme patológico ocorre quando a convicção e o convencimento na infidelidade do parceiro(a) é irrefutável e a segurança de que a realidade tal como se percebe é absoluta, de modo que a vivência ciumenta pode ser completamente delirante. A ideia delirante é considerada uma “crença pessoal falsa que se baseia em inferências incorretas sobre a realidade externa, crença que se sustenta com firmeza apesar do que a maioria das outras pessoas acredita e apesar do que constitui uma prova ou evidência óbvia e indiscutível do contrário ” (APA, 1994). Neste caso, o importante não é o ciúme em si, mas o delírio de engano que existe por trás dele (Santolaya, 2010).
Esses ciúmes são extremos. O parceiro(a) persegue seu namorado(a), amante ou cônjuge e o(a) vigia e espreita constantemente, revisa seu celular, suas roupas, a mochila e, algumas vezes, até paga um detetive particular para seguir seu parceiro(a) sem que este(a) perceba. Quando o ciúme patológico aparece no relacionamento para ficar, o mais provável é que o membro do casal que se tenta dominar desapareça (Cahue, 2013).
Embora tradicionalmente o tratamento de escolha para o transtorno delirante tipo ciumento tenha sido sempre a abordagem farmacológica (neurolépticos e inclusive alguns antidepressivos de última geração), desde a perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a abordagem terapêutica do ciúme patológico (passional e obsessivo) se centra basicamente na modificação da crença delirante e suas consequências emocionais e comportamentais. Assim também o enfoca a formação em terapia de casais do ISEP.
Tratamento do ciúme
A seguir, explicamos em que se fundamenta esta aproximação terapêutica e quais são seus elementos básicos:
Objetivos terapêuticos
Através dessas abordagens, tenta-se que o paciente reconheça o delírio ou ciúme patológico como uma crença e não um fato objetivo (A); Que seu delírio representa uma reação e uma tentativa de dar sentido à sua experiência; Que entenda que muitas das perturbações que sofre estão ligadas ao delírio (B) e, portanto, não são consequências inevitáveis de sua experiência (A). E, finalmente, que rejeite (após o processo de discussão e comprovação) o delírio em favor de um marco explicativo alternativo (novo B) que é menos perturbador e produz menos afetações (novos C).
Formulação do problema
Uma vez estabelecida uma relação de confiança com o paciente, finalizada a avaliação e determinado o grau de convicção nas crenças delirantes, formula-se o problema do paciente explicando as possíveis conexões entre suas experiências, seu estilo interpessoal, os acontecimentos significativos, o início do problema e a análise do ABC atual. Com o objetivo de que o paciente desenvolva uma explicação alternativa e uma formulação (ABC) própria, que suas perturbações emocionais não são o resultado dos delírios em si, mas das interpretações que ele mesmo faz deles.
Disputa verbal
Uma vez entendido o sistema de crenças e os acontecimentos relacionados com a ideia delirante, procede-se à sua modificação. Para isso, é necessário debater e testar as inferências (afirmações que podem ou não ser verdadeiras) que o paciente faz mediante a análise das evidências e a geração de um marco alternativo. Como procedimento para controlar os delírios, emprega-se a disputa verbal, processo que se realiza ao longo da superposição dos seguintes passos:
1. Questionar a evidência das crenças derivadas de seus ciúmes patológicos.
2. Questionar a consistência interna e a plausibilidade de seus ciúmes.
3. Oferecer uma explicação alternativa dos acontecimentos.
4. Avaliação da ideia delirante e explicação alternativa a seus ciúmes patológicos diante da nova informação disponível. Além disso, de debater e testar as avaliações, sobretudo as que causam maior mal-estar, procede-se a desenhar com o paciente e levar à prática experimentos comportamentais que tentam validar ou invalidar a crença ou parte dela.
Eliminação do ciúme
Podem ser eliminados os ciúmes? É difícil dar uma resposta. Cada caso é diferente, obviamente para isso são realizadas distintas estratégias de caráter comportamental destinadas a reduzir as condutas de verificação e os rituais de controle que o paciente exerce sobre o comportamento de seu parceiro(a) (chamadas constantes, controlar o celular de seu parceiro(a), verificação de odores, gravações de sons, etc.) mediante prevenção de resposta e busca do acordo de ambas as partes para não responder às chamadas de segurança, com o objetivo de eliminar o reforço negativo que estas últimas representam para o quadro sintomatológico do paciente que mostra ciúmes patológicos.
De igual modo, utilizam-se técnicas de desativação e de exposição massiva (imaginada) aos temores com a finalidade de produzir uma saciação dos estímulos fóbicos e reduzir a ansiedade derivada do mal-estar emocional que ocasionam ditos estímulos (fóbicos).
Paralelamente, realiza-se uma modificação dos pensamentos ou das crenças distorcidas associadas com os temores fundamentais nos ciúmes patológicos.
A formação e especialização com um Mestrado em Terapia de Casais é indispensável para enfrentar com segurança e eficácia este tipo de casos.